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TROPICÁLIA GIRATÓRIA
Aos 68 anos, Tom Zé tumultua a cultura atacando o machismo e outros preconceitos e defendendo... o pagode
Por Pedro Alexandre Sanches
Do alto de seus 68 anos, o músico baiano/paulistano Tom Zé lançou duas iscas ao Brasil ao apresentar, na semana passada, seu 13º álbum, Estudando o Pagode. A isca presa ao título foi mordida pela mídia, que reagiu prontamente à defesa do pagode pelo artista. Colocando sua música sempre sofisticada a serviço da crítica ao preconceito das classes intelectualizadas contra gêneros mais populares, o músico fomentou revides, discordâncias, discussões localizadas. O pagode polarizou o debate.
Protagonizando o programa de tevê Roda Viva, na segunda-feira 4, ele viu as discussões focarem quase sempre o horror do pagode mauricinho, quase nunca o terror do machismo – mesmo com várias mulheres presentes no debate. “O assunto da segregação da mulher foi minimizado, evitado, e essa estratégia da ocultação, do velamento, em se tratando de problemas femininos, já é observável há muito tempo”, afirma a CartaCapital, comentando o silêncio geral sobre a maior provocação presente em um dos discos mais criativos e audaciosos a nascerem no Brasil dos anos 2000.
Nem ele próprio se safa das questões contra as quais investe qual um Dom Quixote pós-moderno, como demonstrou com agressividade a socióloga mineira. Após entrevistas em que parecia se referir ao pagode como um gênero menor, arrepende-se e tenta corrigir a rota: “Bater em pessoa colocada em posição vulnerável é uma covardia, e eu não faço isso. Peço desculpas a todos”.
A questão feminina vai se ocultando, talvez também graças ao pensamento delirante de um artista que, em meio ao caos, se depara com moinhos concretos como pedra e os converte em música de primeira. A metralhadora giratória do disco transborda rebeldia contra racismo, sexismo, homofobia, cultura de massa, até mesmo o abandono da malha ferroviária brasileira (no incrível pós-samba A Volta do Trem das Onze) – tudo ao mesmo tempo agora. Se política e políticos não habitam o CD, não seja por isso – ei-lo a opinar sobre o Brasil atual: “Nesta eleição ainda votarei em Lula, porque a quinta-coluna que ele enfrenta, configurada na irresponsabilidade da classe média, é de uma eficiência maquiavélica”.
Uma classe oprimida que passa à margem do pandemônio criativo de Estudando o Pagode é aquela à qual o próprio autor pertence: a dos (homens) nordestinos que migraram para o Sul. “Ainda quando cheguei a São Paulo, em 1965, falava-se que aqui o imigrante italiano fora muito evitado pelas chamadas famílias quatrocentonas. Era uma vergonha admitir um ‘carcamano’ no sangue e no nome do clã. Também a expressão ‘baianada’ era muito repetida, mas, curiosamente, nunca me senti ofendido”, tateia a questão latente.
“Para mim é mais doloroso, presentemente, ver que a classe média alta brasileira está protagonizando um novo e indisfarçável racismo, uma direita radical que tem ódio do pobre e toma o excluído como raça inferior, o que, como ondas concêntricas, aumenta a má vontade contra a mulher, os gays, as lésbicas”, prossegue.
Como se pode perceber, temas-tabus se concentram e se diluem entre rajadas de referências cruzadas e dentro de um parque sonoro de diversões (o som extraído de folhas de fícus é recorrente – e, acredite, causa mais prazer que irritação). Salta à frente então outro dado, o de que Tom Zé, aos 68 anos, abdica da solidão artística para conceber um trabalho coletivo, diluído e concentrado num sem-número de intérpretes e instrumentistas.
Além de “autoplagiar” em pique de chiste um outro disco crucial do autor (Estudando o Samba, de 1975), Estudando o Pagode acaba por se reportar à gestação de Tom Zé como o conhecemos hoje: a explosão criativa grupal de Tropicália ou Panis et Circencis (1968, dividido com Gil, Caetano, Gal, Mutantes e outros). Mas pouco têm a ver os dois momentos, a entender pelo curto comentário: “É muito diferente. Naquele tempo eu era uma cabeça sem destino, e agora sou um destino quase com cabeça”.
É que, contrariando a máxima de que música popular é arte de juventude, Tom Zé chega a mais um ápice artístico, pronto não apenas a proteger (e talvez vitimizar) a condição feminina e a condição pagodeira, mas a cutucar uma por uma todas as minorias oprimidas que constituem este Brasil.
* Matéria completa em http://cartacapital.terra.com.br/site/index_frame.htm

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